Argentinos no Super Rugby! E agora?

Argentinos no Super Rugby! E agora?

A assinatura do contrato que coloca uma franquia argentina no Super Rugby foi um mero formalismo para algo que já se está trabalhando, em silêncio, no rugby argentino. A decisão oficial vai mudar o cenário onde se desenvolve o rugby mais potente do planeta, já que, entre 2016 e 2020, os melhores jogadores argentinos terão a oportunidade de competir e crescer jogando contra a elite do Hemisfério Sul.

O grande arquiteto desta nova realidade é, sem dúvida, Agustín Pichot. Mesmo que a assinatura tenha saído na quinta-feira, dia 20 de novembro de 2014 (data que merece ser anotada), tudo isso começou muito antes. Muitíssimo antes. Quando falamos do rugby argentino nada chega por geração espontânea. Vale lembrar que existe uma história de 140 anos da modalidade no país e um bronze no Mundial de 2007, que foi o grande empurrão que o rugby precisava para quebrar regras, inovar e mudar para melhor – ou “patear el tablero”, como se diz na Argentina.

Como jogador, Pichot sempre pediu ajuda para o rugby argentino. Logo depois do grande Mundial da França 2007 lhe foi dada uma oportunidade gigante na União Argentina de Rugby (UAR). A possibilidade de fazer parte de uma competição regular vinha ligada ao compromisso de estabelecer academias e centros de alto rendimento. Dentro do país, discutia-se o profissionalismo contra o amadorismo. O IRB (hoje World Rugby), que financiava muitos desses planos, queria uma liga profissional, mas o trabalho que se fez para proteger o rugby amador foi enorme e eficiente.

Pichot trabalhou incansavelmente armando, escrevendo, corrigindo e dando foco ao projeto que hoje é realidade. Como líder deste processo, teve o apoio da UAR; o que começou em dezembro de 2007, no Foro de Woking (ING), com todos os países do Tier One, seguiu com o apoio político dos sucessivos presidentes da instituição.

No dia 2 de fevereiro de 2009, à uma hora do centro de Buenos Aires, começou a funcionar o Plano. Hoje, há cinco Centros de Alto Rendimento nos principais núcleos de rugby do país, outros cinco Centros de Rugby e quatro Academias, com um alcance de mais de 86% de todos os jogadores argentinos. O sistema fornece jogadores para os Pumas, os Jaguares, os Pampas XV, às seleções juvenis, para o seven masculino e feminino. A peneira hoje é muito fina e não se escapam atletas de projeção internacional.

Nasceram os Pampas XV, cresceu a competitivade dos Jaguares e, com a entrada no Rugby Championship multiplicou por dois a quantidade de test matches dos Pumas. O Plano já tomava forma, mas nas palavras de Pichot: “faltava esse último e transcendental passo que era somar uma franquia argentina no principal torneio de clubes do mundo: o Super Rugby”.

“Isso nos permite fechar o ciclo que planejamos desde o rugby amador até o profissional. A inclusão no Super Rugby dará aos nossos jogadores enormes possibilidades de continuarem crescendo e a nossos torcedores a chance de ver um time argentino enfrentando os melhores atletas do mundo durante sete meses, a cada ano, por pelo menos cinco temporadas”, sentenciou Pichot, ex-capitão dos Pumas.

Agora só falta entender como se formará a franquia, como se contratarão os jogadores e quantos serão exatamente. Será que podem escolher algum atleta brasileiro? Uma temporada de Super Rugby tem, no mínimo, 17 partidas e vai ser preciso ter paciência quanto a resultados. Passar de 15 a 18 times, incluindo uma sexta franquia sul-africana e uma equipe japonesa que jogará algumas partidas em Cingapura, será uma mudança enorme para o torneio. Para os argentinos será uma oportunidade de seguir crescendo e potencializando os Pumas.

Vai ser preciso armar tudo do zero. Sabe-se que as partidas com mando argentino serão em Buenos Aires, por uma questão de viagens, e não capricho da UAR. Então, o trabalho será em várias frentes: esportiva, de marketing para conseguir torcida e comercial para encontrar apoio de empresas.

Tudo nasceu com uma visão, com um sonho. Nasceu de uma obstinada determinação de que o caminho a ser percorrido era este. Muitos foram se somando e, o que parecia ilusão, hoje é realidade. O que vem por aí parece ser a parte mais divertida.

Marcos Tacon UAR

Frankie hoje

 

 

Frank 1Frankie Deges é argentino, jornalista e consultor de comunicação. Trabalhou em mais de 250 test-matches, além das últimas cinco Copas do Mundo de Rugby. Cobriu o esporte em 28 países de cinco continentes incluindo, claro, o Brasil. Em 1984 veio a São Paulo em uma gira de rugby e, desde 2001, visitou o país 15 vezes por temas relacionados ao nosso esporte.

 

 

Fotos: 

– Eliot Blondet/UAR (Pumas celebram em duelo contra a França, nov. 2014)
– Marcos Tacon/UAR (Seleção da Argentina reunida em Murrayfield, nov. 2014)
– Prensa UAR (reunião dos representantes das Uniões e da SANZAR na assinatura do novo Super Rugby)

 

*Os textos publicados na sessão COLUNISTAS expressam as opiniões dos mesmos. Neste espaço, a RUGBIER promove a livre expressão de ideias de especialistas em diversas áreas do rugby.

 

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