GUERREIRO DO RUGBY: Lalo Lagarrigue

GUERREIRO DO RUGBY: Lalo Lagarrigue

Na decisão do Campeonato Brasileiro de Rugby 2014, os jogadores do Curitiba levantaram uma faixa de agradecimento: “Obrigado Lalo, Gracias rugby”. A merecida homenagem do clube campeão tinha como destino Eduardo Lagarrigue, o Lalo, argentino de 66 anos e um dos fundadores do clube paranaense. Arquiteto de profissão e rugbier de alma, Lalo é um dos grandes incentivadores do esporte no país – tarefa a qual se dedicou intensamente nos últimos 30 anos.

Natural de Tucumán, província do norte argentino, Lalo se destacou como jogador na década de 70, ainda na sua cidade natal. Na mudança para o Brasil, fez parte do início do Curitiba Rugby Clube em 1982 e, recentemente, foi um dos idealizadores do projeto Vivendo O Rugby (VOR), celebrado pela International Rugby Board (agora World Rugby) com o “Spirit of Rugby Award” de 2014 ou “Prêmio do Espírito do Rugby”. Batemos um papo com o experiente rugbier sobre sua visão do esporte, a nova era do Curitiba e, claro, sobre o VOR, que será um dos destaques na Revista RUGBIER #5.

LALO OK

RUGBIER: Qual foi seu primeiro contato com o rugby?

Lalo Lagarrigue: Comecei aos seis anos de idade no meu clube, o Lawn Tennis, de Tucumán, na Argentina, onde nasci. Portanto, jogo rugby desde 1954. Fui campeão tucumano como capitão do meu time em 1973.

E aí você decidiu trazer essa paixão para o Brasil?

Sempre me interessei no desenvolvimento do rugby. Aqui no Brasil fundei o Curitiba e já fui treinador de diversas categorias masculinas, femininas, de base e principais. Atualmente sou o head coach do Curitiba e dirijo uma empresa de arquitetura.

Qual foi o ponto de partida do projeto Vivendo O Rugby (VOR), um dos grandes trunfos do atual campeão brasileiro?

Uma das minhas maiores preocupações era a de ter times de base para a sustentação da equipe principal do Curitiba, sabendo que isso nos levaria a trabalhar com a infância, pois é nessa idade que começa o desenvolvimento de diversos fatores como condição motora, agilidade, habilidade física, postura corporal e mental, controle e a qualidade de movimento, capacidade de leitura, etc. Pensando nisso, vimos a necessidade de trabalhar nas escolas da região, mas ainda não sabíamos qual a melhor metodologia a ser implantada.

E como chegaram a uma resposta?

Viajando pela Argentina, adquiri material didático, em especial sobre o acompanhamento escolar na França, onde o rugby é o esporte escolhido para suporte físico e educacional em toda a rede de ensino. Isso foi em 2007, quando decidi montar uma apostila para curso de extensão, que trata basicamente sobre a prática esportiva e o rugby nas escolas. Quando surgiram os primeiros colégios a aceitarem nossa parceria, minha amiga Leca Jentzsch [atual coordenadora do VOR] se propôs a dar conotação mais didática e técnica a todo este material e, com paciência e criatividade, produziu a cartilha do VOR utilizada atualmente.

Como lidar com novos praticantes de um esporte que busca seu espaço no Brasil?

Não importa se o esporte é popular ou se é desconhecido, pois o que estamos oferecendo não é pratica esportiva, mas sim atividade físico recreacional.

Na apostila fica claro o caráter didático e educacional do VOR, onde o esporte aparece em plano secundário. Para a criança o importante é brincar: as atividades lúdicas colocam em destaque valências físicas e emocionais, que no futuro irão a desabrochar em cada um.

Dentre diversos novos projetos semelhantes relacionando esporte e formação de pessoas, por que acha que o VOR obteve sucesso?

O sucesso do VOR se deve principalmente a grande motivação e o amor pelo rugby de todos os envolvidos, principalmente de sua condutora Leca de toda a comissão diretiva do CRC e dos professores e monitores. Outro fator de sucesso é provocado pela carência de atividades similares no Brasil. Há um vácuo, e nós aproveitamos para preencher.

Esse não é um problema apenas do rugby, certo?

Tenho claro que nossa sociedade requer que os poderes públicos prestem mais atenção no esporte como fator decisivo na formação e educação da pessoa. As escolas deveriam ter a obrigação de colocar o esporte no seu devido lugar que é o de base para a educação, e não pensar simplesmente no componente físico lúdico, mas sim no fator social e comportamental como um todo.

Nós devemos fazer pressão nos órgãos políticos educacionais para darem mais atenção ao esporte. Que o esporte seja parte importante do currículo, não somente um passa tempo recreativo. Que sejam formados centros de excelência para canalizar este potencial. Que sejam incentivados os encontros e as competições de todas as modalidades. Que sejam contratados profissionais de prestígio para dirigir centros de desenvolvimento. Que a natureza social do esporte seja compreendida de uma vez por todas.

Qual deve ser o legado do VOR para o rugby e para os alunos do projeto?

Meu papel no VOR e no Curitiba R.C. é de head coach, ou seja, sou o coordenador específico do esporte para todas as categorias do clube. Vejo o que uma criança deve desenvolver tecnicamente, taticamente ou fisicamente para responder as necessidades futuras do time principal. Mais do que isso, acredito que o VOR possa ajudar a abrir a cabeça dos jovens a panoramas antes nunca pensados, em um futuro pleno de possibilidades. Nosso sonho é que eles tenham sonhos e realidades muito além das esperadas.

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Fotos:
Arquivo Pessoal – Lalo Lagarrigue
Curitiba Campeão do Super 10 – 2014 (João Neto/Fotojump)

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